Detalhes / OBRA DE ARTE
Título: O Nascimento de Vênus
Criador: Alexandre Mury
Data de criação: 2010
Tipo: fotografia (Tríptico)
Meio: C-print (impressão cromogênica).
Período da Arte: Contemporâneo
Movimento/Estilo: Arte Conceitual, Arte Performática
Assunto: autorretrato, fotografia, corpo inteiro, banho na bacia, água de balde
Obras Relacionadas: "O Nascimento de Vênus" (1485–1486)
Artistas Relacionados: Sandro Botticelli
⚿ Palavras-chave
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Em O Nascimento de Vênus (2010), Alexandre Mury desloca um dos mitos fundadores da tradição visual ocidental — cristalizado na pintura O Nascimento de Vênus de Sandro Botticelli — para o interior de uma cena doméstica saturada de contingência. O gesto não é apenas de citação ou releitura: trata-se de uma operação de transposição ontológica, onde o corpo, o espaço e o tempo são submetidos a uma torção crítica.
A obra apresenta-se como tríptico fotográfico — três painéis verticais quase idênticos — nos quais um corpo masculino nu, de pé dentro de uma bacia plástica azul, verte água sobre si com um pequeno balde verde. A ação, reiterada em variações mínimas, suspende-se entre repetição e diferença. O fluxo da água, capturado em três instantes contíguos, não constitui propriamente uma narrativa linear, mas um campo de tensão temporal: algo acontece, quase nada muda — e, no entanto, tudo se transforma.
A escolha do tríptico não é formalismo, mas necessidade discursiva. Entre o instante único da fotografia e a duração contínua do cinema, Mury instala um intervalo — um gap — onde o acontecimento se fratura. A imagem tripla articula uma temporalidade que não se resolve: nem sequência plena, nem simultaneidade absoluta. Nesse sentido, a obra se aproxima tanto das séries fotográficas de Duane Michals quanto das operações conceituais de Ai Weiwei em Dropping a Han Dynasty Urn, onde o gesto só se realiza plenamente na articulação entre imagens.
Mas, ao contrário da decomposição explícita do movimento, aqui a variação é quase imperceptível. Essa economia do acontecimento intensifica a percepção: o olhar é convocado a habitar a diferença mínima. Como sugeriria Graham Harman, o objeto permanece o mesmo enquanto seus modos de aparecer se alteram — o corpo ainda é corpo, mas atravessado por inflexões que não se deixam reduzir à evidência visível. O que se apresenta é menos o evento do banho do que a persistência de um ser em estado de transformação latente.
O espaço doméstico — uma área de serviço densamente povoada por objetos utilitários — atua como contraponto radical ao imaginário clássico. Baldes, vassouras, máquina de lavar, botijão de gás e uma profusão de plásticos coloridos instauram uma natureza-morta contemporânea, onde o excesso de matéria banal tensiona qualquer possibilidade de idealização. Nesse cenário, o corpo não emerge da concha, mas da precariedade do cotidiano.
A presença deslocada de uma boneca suspensa, quase espectral, introduz uma dimensão de estranhamento que beira o onírico. Ela observa — ou testemunha — o acontecimento, como um resíduo de ficção infiltrado no real. O espaço torna-se assim ambíguo: simultaneamente íntimo e teatral, funcional e simbólico.
A figura masculina, por sua vez, reinscreve o mito sob uma lógica de inversão e indeterminação. Se a Vênus clássica encarna a emergência da beleza idealizada, aqui o corpo apresenta-se sem ornamento, marcado, situado. A nudez não é heroica nem erótica no sentido convencional; é antes uma exposição crua, atravessada por uma dimensão ritualística. O gesto de verter água sobre si mesmo aproxima-se de um auto-batismo — uma operação de reinício, de passagem, de tentativa de inscrição de si no tempo.
Essa dimensão ritual encontra ressonâncias difusas — não programáticas — em imaginários que atravessam a cultura visual contemporânea, como a inversão de gênero evocada em Venus as a Boy de Björk, onde o feminino se desloca para além do corpo feminino. Em Mury, no entanto, essa operação não se resolve como afirmação identitária, mas como campo de ambiguidade.
A cor desempenha papel decisivo na construção da imagem. Tons saturados — verdes, azuis, rosas — emergem do universo plástico dos objetos cotidianos, em contraste com a neutralidade do ambiente arquitetônico. A iluminação, direta e incisiva, acentua texturas e volumes, conferindo densidade quase tátil à cena. A água, suspensa no ar, captura a luz e se torna matéria visível do tempo.
Se o tríptico pode evocar tanto a tradição do retábulo quanto a serialidade pop de Andy Warhol, sua operação fundamental está menos na citação e mais na fricção entre regimes de imagem. O sagrado e o banal, o clássico e o doméstico, o instante e a duração coexistem sem síntese.
Há, por fim, uma dimensão de devir que atravessa a obra: não o devir como transformação espetacular, mas como processo contínuo e quase imperceptível. Entre uma imagem e outra, algo escapa — e é precisamente nesse intervalo que a obra se instala.
O nascimento, aqui, não é origem. É insistência.
Afresco de Pompeia, Casa de Vênus, século I d.C. Desenterrado em 1960 d.C. Supõe-se que este afresco possa ser a cópia romana do famoso retrato de Campaspe, amante de Alexandre, o Grande. Dados anteriores a 79 d.C.
Representa Vênus (Afrodite) nascendo do mar, deitada dentro de uma grande concha e acompanhada por dois cupidos (erotes).
Influência Artística: Acredita-se que este afresco seja uma cópia romana de uma pintura perdida do mestre grego Apeles, que teria usado Campaspe, amante de Alexandre o Grande, como modelo para a deusa.
Afrodite Anadiômene (Apeles, séc. IV a.C.) foi uma pintura famosa (hoje perdida) do maior pintor da Grécia Antiga, Apeles.
O Tema: "Anadiômene" significa "surgindo das águas". Descrições antigas diziam que ela estava espremendo a água dos cabelos enquanto emergia do mar.
Legado: Botticelli conhecia essa obra através dos escritos de Plínio, o Velho. Seu objetivo era, em parte, "competir" com os antigos e recriar a lendária pintura perdida de Apeles para a era moderna.
A Afrodite de Cnido, esculpida por Praxíteles por volta de 360-350 a.C., é um dos marcos mais significativos da história da arte ocidental por ter sido a primeira representação em tamanho real de uma divindade feminina nua na Grécia Antiga.
Antes de Praxíteles, a nudez na escultura grega era quase exclusiva para atletas masculinos e deuses; deusas eram geralmente retratadas vestidas.
A deusa é retratada em um momento íntimo e cotidiano, preparando-se para um banho ritual. Ela segura seu manto com a mão esquerda sobre uma hidria (vaso de água), enquanto a mão direita cobre discretamente a região pubiana, em uma pose conhecida como Venus Pudica (Vênus Pudica ou Modesta).
A deusa é surpreendida em um momento íntimo e instintivamente cobre o púbis e os seios com as mãos, como se sentisse o olhar de um observador indiscreto. Esta pose deriva do famoso modelo da Afrodite de Cnido, criada por Práxedes em meados do século IV a.C., que se tornou extremamente popular nos períodos helenístico e romano.
Durante a restauração de 2012, foram descobertos vestígios da policromia original da estátua. Havia douramento nos cabelos, mencionado por viajantes do Grand Tour no século XVIII, mas que se acreditava perdido.
Interessantemente, os lóbulos das orelhas da estátua são perfurados, permitindo a inserção de joias de metal, o que acentuava ainda mais a aparência realista da figura.
Sinopse: O vídeo, dirigido por Sophie Muller, é conhecido por sua estética simples e sensual. Ele mostra Björk em uma cozinha, onde ela interage e cozinha ovos de uma maneira bastante tátil e contemplativa. Em um momento, um lagarto (um dragão-barbudo) também aparece em seu ombro.
Inspiração: A temática dos ovos foi inspirada no livro favorito de Björk na época, Story of the Eye (1928), do escritor francês Georges Bataille.
Mury, Alexandre
Nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro, no dia 13 de janeiro de 1976, onde reside. Artista por vocação, desde criança desenhou e pintou e aos 16 anos começou a fotografar. Em 1997, ingressa na Faculdade de Filosofia de Campos cursando Publicidade e Propaganda, que conclui em 2001. Lecionou em algumas faculdades entre 2003 e 2006, nos cursos de Comunicação Social e Design Gráfico.
Atuou profissionalmente como diretor de arte em agências de publicidade de 2001 até 2010. Desde então, dedica-se exclusivamente ao trabalho de fotografia, participando de importantes coleções, como as de Gilberto Chateaubriand e Joaquim Paiva.
Obras do artista (1 obras cadastradas)
O Nascimento de Vênus - The Birth of Venus (2010)
Dados sobre o Warburg
Total de imagens cadastradas 21702
Total de relacionamentos 6155
Total de Artistas Cadastrados 4718
O Banco Comparativo de Imagens, também conhecido como Warburg, é uma ferramenta de busca desenvolvida pelo Centro de História da Arte e Arqueologia (CHAA) da Unicamp.
O nome Warburg é uma homenagem direta a Aby Warburg (1866–1929), um influente historiador da arte e teórico alemão que revolucionou a forma como as imagens são analisadas.
A escolha do nome justifica-se pelo método comparativo que ele criou:
Atlas Mnemosyne: Warburg desenvolveu um projeto chamado Atlas Mnemosyne, que consistia em grandes painéis onde ele organizava fotos de obras de arte, mapas e recortes de jornal para encontrar relações visuais entre eles.
Fórmulas de Emoção (Pathosformel): Ele buscava identificar como certas formas, gestos e expressões corporais "viajavam" através do tempo e de diferentes culturas, reaparecendo em épocas distintas.
Quebra de Hierarquias: Assim como o banco de imagens do CHAA, Warburg não organizava as imagens apenas por data ou autor, mas sim por afinidades visuais e temas, permitindo que uma pintura renascentista fosse comparada a uma imagem contemporânea com base na sua forma ou sentimento.
Originalmente publicado em:
http://warburg.chaa-unicamp.com.br/artistas/view/1110Arquivo recuperado em:
https://web.archive.org/web/20210117083825/http://warburg.chaa-unicamp.com.br/obras/view/6389